Open Finance Para Classe C e D: Promessa ou Realidade? Análise do Radar Fintech

## O que é Open Finance e seu objetivo para as classes C e D

O Open Finance é uma evolução do sistema financeiro tradicional que permite o compartilhamento seguro, transparente e autorizado dos dados financeiros dos clientes entre diferentes instituições financeiras e não financeiras. Essa troca de informações, regulamentada pelo Banco Central do Brasil desde 2021, visa ampliar a concorrência e a inovação no setor bancário, principalmente para públicos historicamente excluídos, como as classes C e D.

Para as classes C e D, que representam a maior parte da população brasileira, o Open Finance deveria facilitar o acesso a serviços financeiros mais justos e adaptados. Por meio do compartilhamento de dados, fintechs e bancos digitais podem desenvolver produtos que considerem melhor o perfil do cliente, reduzindo taxas abusivas e aumentando a oferta de crédito. Além disso, a portabilidade de dados permite que o consumidor migre sua base financeira para instituições que ofereçam melhores condições, sem burocracia.

Entretanto, o Radar Fintech chama atenção para o fato de que a implementação do Open Finance ainda é inicial e enfrenta desafios para transformar essa promessa em realidade concreta. O uso efetivo dessas novas tecnologias pelas classes C e D depende de fatores que vão além da tecnologia, como educação financeira, segurança nas transações e infraestrutura digital.

## Contexto socioeconômico das classes C e D no Brasil

As classes C e D, segundo o IBGE (2023), correspondem a cerca de 70% da população brasileira, com renda mensal que varia entre 1 e 5 salários mínimos. Essa parcela da população é marcada pela informalidade no trabalho, instabilidade econômica e acesso restrito a produtos financeiros formais. Muitos dependem de serviços informais para movimentar recursos, o que limita seu crescimento econômico e o acesso a crédito com condições dignas.

Dados do Banco Central de 2024 indicam que 35% das pessoas nessas classes ainda não possuem conta bancária formal, enquanto 48% utilizam meios informais ou soluções financeiras digitais básicas, como carteiras eletrônicas pré-pagas, para realizar suas transações. Essa realidade evidencia uma lacuna significativa na inclusão financeira do país.

O Radar Fintech destaca que, apesar dos avanços na digitalização bancária, o acesso desigual à internet e a baixa familiaridade com ferramentas digitais dificultam o uso do Open Finance por esse público. A falta de confiança nas instituições financeiras tradicionais, muitas vezes associada a experiências negativas anteriores, também é um fator que limita a adesão.

Além disso, um levantamento do Procon em 2024 revelou que 42% dos consumidores das classes C e D relatam dificuldades em compreender contratos financeiros e tarifas bancárias, o que reforça a necessidade de iniciativas educacionais para que essas pessoas possam usufruir plenamente dos benefícios do Open Finance.

## Impactos reais do Open Finance para classes C e D

### Portabilidade e liberdade de escolha

A portabilidade financeira é um dos pilares do Open Finance, permitindo ao consumidor transferir seus dados e histórico financeiro entre instituições para buscar melhores condições de crédito, serviços e tarifas. Essa liberdade deveria estimular a concorrência e beneficiar diretamente as classes C e D.

Segundo dados do Banco Central referentes ao 1º semestre de 2024, aproximadamente 1,2 milhão de consumidores das classes C e D utilizaram a portabilidade via Open Finance. Embora seja um número expressivo, ele representa menos de 2% do total dessa população, estimada em mais de 70 milhões. O Radar Fintech aponta que essa baixa adesão está relacionada a três principais fatores: desconhecimento da funcionalidade, receios em relação à segurança dos dados e a oferta ainda limitada de produtos atrativos.

Além disso, o Radar Fintech identificou que 60% dos usuários que realizaram portabilidade pertencem a grandes centros urbanos, onde o acesso à internet e o nível de educação financeira são relativamente melhores. Nas regiões Norte e Nordeste, a taxa de portabilidade é inferior a 0,5%, evidenciando disparidades regionais no uso do Open Finance.

Os relatos coletados pelo Radar Fintech indicam que muitos consumidores não sabem que podem migrar seus dados livremente ou têm dúvidas sobre a segurança desse processo. Isso mostra que, para a portabilidade ser um instrumento efetivo de empoderamento financeiro, é necessário investir em comunicação clara e acessível.

### Ofertas personalizadas: promessa vs realidade

Uma das maiores expectativas do Open Finance é a oferta de produtos financeiros ajustados ao perfil real do consumidor, com taxas de juros mais competitivas e limites de crédito condizentes com suas necessidades e capacidade de pagamento.

De acordo com um levantamento do Radar Fintech, baseado em dados do Banco Central e Procon (2024), as fintechs que utilizam dados compartilhados para análise de crédito conseguiram reduzir a taxa média para clientes das classes C e D de 8,9% ao mês para cerca de 7,3%. Essa queda representa uma melhora significativa, mas ainda está longe de níveis ideais para essa população.

Por outro lado, bancos tradicionais continuam praticando taxas médias superiores a 10% ao mês para o mesmo público, evidenciando que a competição é mais forte entre fintechs e bancos digitais que aderiram ao Open Finance. Essa disparidade indica que a tecnologia sozinha não é suficiente para massificar as melhores condições; é preciso também mudança cultural e regulatória.

Em termos de limite de crédito, houve um aumento médio de 20% entre os usuários de Open Finance, passando de R$ 1.200 para R$ 1.450 em 2024. Contudo, o Radar Fintech alerta que, para trabalhadores informais e autônomos, esse aumento ainda não cobre as demandas reais, que incluem necessidades emergenciais e investimentos produtivos.

Além disso, o Radar Fintech identificou que as fintechs estão investindo em modelos mais flexíveis de análise de risco, utilizando inteligência artificial e aprendizado de máquina para considerar fatores não tradicionais, como histórico de pagamentos de serviços essenciais e movimentações em contas digitais. Isso pode ampliar o acesso ao crédito para quem antes era excluído por falta de garantias formais.

### Riscos e desafios para o público de baixa renda

O compartilhamento ampliado de dados financeiros, embora traga benefícios, também expõe o consumidor a riscos maiores, sobretudo populações mais vulneráveis. O Radar Fintech destaca que as classes C e D, que frequentemente possuem menor educação financeira e acesso limitado a recursos para contestação, podem ser vítimas de fraudes, cobranças indevidas e práticas abusivas.

O Procon registrou um aumento de 18% nas reclamações relacionadas a cobranças indevidas e vendas casadas após 2023, período em que o Open Finance teve maior expansão. O Radar Fintech correlaciona parte desse aumento a falhas na comunicação das instituições e à ausência de fiscalização rigorosa sobre o uso dos dados compartilhados.

Outro ponto crítico é a segurança da informação. Embora o Banco Central imponha normas rígidas para o compartilhamento e armazenamento de dados, o Radar Fintech identificou casos isolados de vazamentos e tentativas de fraudes que atingiram consumidores de baixa renda. A vulnerabilidade digital desse público, somada à falta de conhecimento sobre práticas seguras, agrava o risco.

Além disso, a oferta de produtos financeiros complexos, mesmo que personalizados, pode confundir os consumidores. O Radar Fintech recomenda que fintechs e bancos adotem estratégias claras de transparência e simplificação, evitando o chamado “overload” de informações que dificulta a tomada de decisão consciente.

## Barreiras tecnológicas e educacionais

Para utilizar plenamente o Open Finance, o consumidor precisa dispor de acesso digital adequado e entender o funcionamento do sistema financeiro. O Radar Fintech reforça que essas condições ainda não são uma realidade para grande parte das classes C e D.

Dados da pesquisa TIC Domicílios 2023 apontam que 26% das famílias dessas classes não possuem conexão estável à internet, especialmente em áreas rurais e periferias urbanas. Além disso, 35% dos entrevistados relataram dificuldades em usar smartphones para realizar operações financeiras, seja por falta de familiaridade ou limitações tecnológicas nos dispositivos.

No que diz respeito à educação financeira, o Radar Fintech destaca que menos de 20% da população das classes C e D participou de algum programa formal de capacitação nos últimos dois anos. Essa lacuna limita o entendimento sobre os benefícios e riscos do Open Finance, como o consentimento para compartilhamento de dados e o uso consciente do crédito.

A falta de informação pode levar a decisões prejudiciais, como aceitar ofertas com condições desfavoráveis ou expor dados pessoais sem o devido cuidado. Portanto, o Radar Fintech recomenda políticas públicas e privadas que priorizem a alfabetização financeira e digital, utilizando linguagens acessíveis e formatos adequados para esse público.

## Comparativo de taxas e limites entre bancos tradicionais e fintechs que usam Open Finance

Análises realizadas pelo Radar Fintech em 2024 mostram que fintechs que utilizam o Open Finance apresentam, em média, taxas de crédito 30% menores do que bancos tradicionais para as classes C e D. Além disso, o limite médio concedido por essas fintechs é cerca de 20% superior.

Essa diferença é resultado da capacidade dessas instituições de analisar dados financeiros integrados, permitindo uma avaliação de risco mais precisa e personalizada. Por exemplo, fintechs que consideram pagamentos de serviços essenciais e movimentações em contas digitais podem identificar bons pagadores que os bancos tradicionais ignoram.

No entanto, o Radar Fintech também salienta que nem todas as fintechs oferecem condições vantajosas, e há casos de empresas que praticam taxas elevadas ou utilizam dados compartilhados para estratégias agressivas de venda, gerando reclamações no Reclame Aqui.

Portanto, para o consumidor das classes C e D, é fundamental comparar ofertas, entender os termos e avaliar a reputação das instituições. A transparência e a regulação do setor são essenciais para garantir que o Open Finance seja uma ferramenta de inclusão e não de exclusão ou endividamento.

## O que o futuro reserva para o Open Finance e as classes C e D?

O Radar Fintech projeta que o Open Finance continuará evoluindo nos próximos anos, com a inclusão de novos segmentos, como seguros, investimentos, previdência privada e até mesmo energia e telecomunicações, ampliando as possibilidades de personalização e integração financeira para as classes C e D.

O Banco Central planeja, para 2025 e 2026, a integração do Open Finance com o Open Data, permitindo que dados econômicos e sociais sejam cruzados para melhorar ainda mais a análise de crédito e a oferta de produtos digitais. Essa ampliação pode ampliar o acesso a serviços financeiros e reduzir a informalidade.

Contudo, o Radar Fintech ressalta que, para que esses avanços beneficiem efetivamente a população de baixa renda, serão necessários investimentos simultâneos em:

– Educação financeira focada nas particularidades das classes C e D, com conteúdos que expliquem direitos, riscos e oportunidades do Open Finance.
– Expansão do acesso à internet de qualidade e dispositivos digitais acessíveis, especialmente em regiões menos atendidas.
– Regulamentação e fiscalização mais rigorosas para coibir fraudes, práticas abusivas e garantir a segurança dos dados.
– Desenvolvimento de produtos financeiros inclusivos, transparentes e adaptados às necessidades reais da população de baixa renda.

Além disso, o Radar Fintech destaca a importância do engajamento da sociedade civil, organizações não governamentais e órgãos de defesa do consumidor para monitorar a evolução do Open Finance e pressionar por melhorias contínuas.

## Conclusão: promessa ainda em construção

O Open Finance é uma ferramenta inovadora com potencial transformador para as classes C e D, abrindo caminhos para maior inclusão financeira, melhores condições de crédito e mais liberdade para o consumidor. No entanto, o Radar Fintech evidencia que ainda estamos no início desse processo e que os avanços alcançados até 2024 são modestos diante dos desafios existentes.

A baixa adesão à portabilidade, as melhorias graduais nas taxas e limites, os riscos associados à segurança e à educação financeira, bem como as barreiras tecnológicas, apontam para a necessidade de esforços coordenados entre reguladores, fintechs, bancos e sociedade para que o Open Finance cumpra sua missão social.

Somente com investimentos em infraestrutura digital, educação financeira acessível e regulação eficaz será possível garantir que o Open Finance deixe de ser uma promessa e se torne uma realidade efetiva para a população de baixa renda brasileira.

O Radar Fintech continuará acompanhando esse cenário de perto, oferecendo análises baseadas em dados públicos e em pesquisas de campo, para garantir que a inovação financeira caminhe lado a lado com a inclusão e a proteção do consumidor.

## FAQ

**O que é Open Finance e por que ele é importante para as classes C e D?**
Open Finance permite o compartilhamento seguro de dados financeiros entre instituições, facilitando o acesso a produtos melhores e mais baratos, especialmente para quem tem dificuldade de crédito, como as classes C e D.

**Quais os principais benefícios do Open Finance para o público de baixa renda?**
Entre os benefícios estão a possibilidade de portabilidade financeira, ofertas personalizadas de crédito com taxas menores e maior transparência nas condições financeiras.

**Quais os principais riscos do Open Finance para os consumidores das classes C e D?**
Os riscos incluem exposição a fraudes, uso indevido de dados, ofertas abusivas e falta de entendimento sobre os produtos financeiros.

**Por que nem toda a população das classes C e D está usando o Open Finance?**
Fatores como falta de acesso à internet, baixo conhecimento sobre o sistema, desconfiança e pouca oferta de produtos competitivos limitam o uso.

**Como o Open Finance pode evoluir para beneficiar mais a população de baixa renda?**
Com educação financeira ampliada, melhor regulação, inclusão digital e maior diversidade de produtos financeiros inclusivos.

Instituição Taxa Média de Crédito (%) Limite Médio de Crédito (R$) Score Médio de Crédito Fonte
Banco Tradicional A 10,5 1.200 580 Banco Central, 2024
Banco Tradicional B 11,3 1.100 570 Banco Central, 2024
Fintech Open Finance X 7,1 1.500 610 Radar Fintech, 2024
Fintech Open Finance Y 7,5 1.400 600 Radar Fintech, 2024

Fonte: Banco Central, Radar Fintech (2024)

Perguntas Frequentes

O que é Open Finance e por que ele é importante para as classes C e D?

Open Finance permite o compartilhamento seguro de dados financeiros entre instituições, facilitando o acesso a produtos melhores e mais baratos, especialmente para quem tem dificuldade de crédito, como as classes C e D.

Quais os principais benefícios do Open Finance para o público de baixa renda?

Entre os benefícios estão a possibilidade de portabilidade financeira, ofertas personalizadas de crédito com taxas menores e maior transparência nas condições financeiras.

Quais os principais riscos do Open Finance para os consumidores das classes C e D?

Os riscos incluem exposição a fraudes, uso indevido de dados, ofertas abusivas e falta de entendimento sobre os produtos financeiros.

Por que nem toda a população das classes C e D está usando o Open Finance?

Fatores como falta de acesso à internet, baixo conhecimento sobre o sistema, desconfiança e pouca oferta de produtos competitivos limitam o uso.

Como o Open Finance pode evoluir para beneficiar mais a população de baixa renda?

Com educação financeira ampliada, melhor regulação, inclusão digital e maior diversidade de produtos financeiros inclusivos.

  • Pesquisador de Mercado Financeiro para Baixa Renda

    Olá, sou Marcelo, 42 anos, economista de formação e morador da periferia. Estudo o comportamento financeiro de quem ganha até 3 salários mínimos. Escrevo análises profundas mas acessíveis para que o leitor entenda exatamente qual fintech ajuda mais.

Conselho Editorial

Dr. Ricardo Assumpção
Economista, ex-Banco Central

Consultor em regulação financeira e política monetária

Dra. Camila Fonseca
Advogada Financeira, OAB/SP

Especialista em direito do consumidor financeiro e fintechs

Prof. Marcos Silveira
Gerontologista, USP

Pesquisador em inclusão digital da
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